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De quem é o patrimônio de Ouro Preto?

Como a falta de políticas públicas afasta a população de Ouro Preto do patrimônio e desvaloriza as dinâmicas culturais da cidade.

Não é de hoje que os monumentos de Ouro Preto desabam. Em 1949, Manuel Bandeira já suplicava para que políticos e grã-finos colocassem a mão nos bolsos e ajudassem a cidade.

“As chuvas de verão ameaçaram derruir Ouro Preto.
Ouro Preto, a avozinha vacila.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.

Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo.
Mas Ouro Preto não é só o Palácio dos Governadores,
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os templos,
Os chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.

Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Agüentando-se uns aos outro ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!

Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.”

O soterramento do Solar Baeta Neves em janeiro deste anos foi infelizmente a repetição de um fato do descaso que já ocorrera tantas outras vezes, e que a depender dos atuais responsáveis pelo patrimônio arquitetônico de Ouro Preto, haverá de ocorrer novamente. Outros tantos casarões e peças raras da nossa arquitetura colonial estão neste exato momento em risco. Vide o exemplo da igreja de Bom Jesus de Matosinhos, ruindo lentamente sem amparo de nenhum órgão responsável.

Mas o que me chamou a atenção no caso do Solar Baeta Neves foi que ao lado de toda comoção causada pelo desastre, ocorresse também um movimento reverso. Por todas as redes sociais não foram raros os comentários de membros da comunidade reclamando do destaque excessivo dado ao patrimônio. Gente reivindicando que nos bairros afastados tantas casas caíram e caem sem que a sociedade chore pitangas e que os representantes do poder público só pensam no centro histórico. Para muitos ouro-pretanos, esse tal patrimônio serve apenas para turista ver.

Solar Baeta Neves. Foto: Reprodução.

Essa é uma reação peculiar, mas não de todo descabida.

Em 2011 realizei minha primeira oficina para o Festival de Inverno e a experiência de visitar o Morro Santana, da Queimada, Taquaral e Piedade me revelou que há uma Ouro Preto escondida nas dobras da cidade patrimônio mundial. Uma cidade com acesso precário a saneamento, sem emprego, escola, saúde ou renda. Uma cidade removida das dinâmicas patrimoniais como se não existisse. Uma grande amiga, atriz e poetisa, certa vez definiu Ouro Preto num trocadilho: “Não é uma cidade histórica, mas uma cidade que ‘se dá de histórica’”.

Ouro Preto não é uma cidade só, mas várias. A parte histórica é apenas uma delas e a mais conhecida. Não podemos esquecer que muitas comunidades ouro-pretanas habitam os sítios onde a cidade e a corrida do ouro nasceu: Padre Faria, Morro da Queimada, São João, São Sebastião… O que chamamos de ‘parte histórica’ é a parte selecionada, a vitrine – importância histórica toda Ouro Preto periférica também tem.

Conheci no Taquaral uma família que nunca tinha entrado numa igreja barroca do centro. Pai, mãe e dois filhos adolescentes conheciam só a capela do bairro e quando esta ficou fechada para reparos, rezaram todos ao redor de um oratório improvisado. A avó fora a única a se lembrar de ter ido ao Pilar quando mocinha. Era uma senhora de uns 80 anos. Uma outra moradora da Piedade trabalhava como camareira num famoso hotel de luxo da cidade e não fazia ideia do que era o Museu da Inconfidência. Achava o prédio bonito, mas nunca havia pensado em entrar lá. Quando perguntei o motivo ela foi categórica: “É coisa de turista.”

A distância entre as comunidades dos morros antigos de Ouro Preto e o centro “histórico”. Foto do autor.

São exemplos pontuais? Talvez, mas há um padrão nisso tudo. A comunidade que vive nas periferias ouro-pretanas muitas vezes só desce o morro para acessar as cozinhas dos restaurantes ou para arrumar os leitos dos quartos de hotel. A Ouro Preto periférica vê o turismo como uma oportunidade incompleta, uma promessa não cumprida, isso porque a indústria turística local paga mal e exige muito. O patrimônio e tudo o que ele representa não traz renda justa, não cria nenhum significado maior. É tudo lindo, fotografável, mas não coloca comida na mesa de ninguém – pelo menos não nas periferias – e isso causa uma sensação de despertencimento, de desconexão.

A primeira regra da preservação patrimonial é entender que o patrimônio, seja ele físico ou imaterial, é meu, seu, nosso. O patrimônio não pode ser visto como um prêmio num pedestal, mas como um bem coletivo que amplia o nosso valor sobre a realidade ao redor. Isso quase nunca acontece em Ouro Preto por conta de uma sucessão de péssimas gestões e por causa do endurecimento da ideia de que o barroco é uma coisa linda, europeia e branca. O elemento negro e popular da arte quase sempre é esquecido. O barroco se torna algo que só pode ser admirado, explorado e entendido por uma elite. A jovem camareira moradora do Taquaral não vê a arquitetura colonial como algo positivamente seu porque em sua dialética pessoal isso não faz sentido. O barroco, a beleza arquitetônica e tudo o que o patrimônio monumental de Ouro Preto representa ainda são uma coisa estranha na paisagem para muitos moradores daqui. A falta de uma educação inclusiva e de real atenção para as áreas mais necessitadas repete, gestão a gestão, prefeito a prefeito, o mesmo mote dito lá atrás, no Brasil Colonial. A Ouro Preto central não fala a mesma língua da Ouro Preto das bordas.

Por isso tantos ouro-pretanos acham que o patrimônio não tem utilidade, por isso tantos reclamam dos estudantes, dos turistas, dos “forasteiros”. O que acontece é que a falta de políticas públicas integrativas cria sempre um cenário de “nós” contra “eles”. A cidade não se junta, não frequenta os mesmos espaços, não mistura suas classes nem divide suas oportunidades. Dentro dessa perspectiva Ouro Preto continua a mesma de 300 anos. Os que bebericam sua taça de espumante na varanda do Passo não entendem como é a dinâmica do Padre Faria.

E enquanto não houver políticas públicas pensadas para diminuir esse abismo, o patrimônio de Ouro Preto sempre será subvalorizado, pois não pode haver cidade sem gente, nem história sem povo, nem arte sem olhares diversos. Se uma cidade não sabe o valor de sua gente, tampouco saberá o valor de sua cultura. E uma gente que não sabe o valor da cultura também não sabe da dimensão do próprio valor.


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