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História

A lenda do Sabarabuçu e a fundação de Ouro Preto

Uma montanha de ouro. Como a lenda do Sabarabuçu faz parte da história da fundação de Ouro Preto.

Não é de hoje que cidades imaginárias repletas de ouro e outros tesouros colorem a imaginação das pessoas. Ouro Preto mesma nasceu a partir de uma dessas lendas: o Sabarabuçu.

A primeira referência oficial ao monte “Sarabaçu” aparece no célebre mapa América Meridionale do padre Vincenzo Maria Coroneli, publicado em 1688, em Veneza. Em algumas versões ele aparece circulado por uma lagoa de esmeraldas, em outros relatos é uma rocha de ouro maciço. A lenda do Sabarabuçu (também chamado de sabara-uçu, sabaraboson ou sarabuçu) era a versão tupiniquim do reino no Preste João, um reino lendário que ficava no coração da África onde as tigelas eram feitas de esmeraldas e as formigas carregavam pepitas de ouro pra lá e pra cá.

Mapa América Meridionale. Fonte: Google Arts.
Detalhe onde se lê “Serra de Sarabassu”.

Acreditava-se que Sabarabuçu ficava no território entre São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, o Sertão das Geraes. Apenas três caminhos levavam para essa região até então inexplorada. Pela Bahia, cortando o Norte por veredas sem cidades de apoio, pelo Rio de Janeiro subindo pela serra da Mantiqueira e por São Paulo.

Em 1554, São Paulo do Piratininga se tornou a primeira vila do interior do Brasil. São Paulo estava longe de tudo, mas era localizada em terreno estratégico, se tornando assim uma zona de transição para as entradas do sertão.

A pedido do rei Dom Pedro II em 1674, Fernão Dias, então com mas de 60 anos, partiu oficialmente em busca das lendárias minas do Sabarabuçu com uma tropa de seiscentos homens. Fernão Dias tinha como referência os apontamentos de diversas outras bandeiras e expedições que haviam tentado a sorte no mesmo lugar. Francisco Bruza de Spinoza em 1554, Sebastião Tourinho em 1573, Antônio Dias Adorno em 1574, Gabriel Soares de Sousa em 1591, Marcos de Azeredo em 1596 e 1611, Matias Cardoso de Almeida em 1664, Lourenço Castanho Taques em 1668, isso só para citar as expedições “oficiais”. A maioria dessas expedições nunca retornou por causa de um paradoxo interessante: ou morriam todos pelo caminho sem achar nenhum metal ou pedra preciosa, ou achavam alguma coisa e simplesmente desapareciam para não ter que prestar conta a Coroa. Essa sucessão de desaparecimentos dava margens para mais lendas e causos.   

Casa de Fernão Dias, no Parque do Sumidouro. A casa pertenceu posteriormente a Borba Gato, apontado como o mandante do “sumiço” em Dom Rodrigo de Castelo Branco. Foto: Sec. De Cultura de Minas Gerais.

Enquanto o rei Dom Pedro II mandava Fernão Dias procurar o paradeiro do Sabarabuçu, logo atrás dele ia o encarregado para ser administrador geral do próprio Sabarabuçu, Dom Rodrigo de Castelo Branco, um burocrata português, nomeado para administrar algo que na prática ainda não havia sido descoberto.

Castelo Branco iniciou seus trabalhos em 1673, em uma inspeção que cortou o Brasil do Sergipe ao Paraná, averiguando todas as possíveis minas e suas eventuais contravenções. Quando finalmente chegou ao sertão, sua presença não foi bem aceita. Para os que já estavam tirando ouro na surdina o representante real era uma ameaça. Tanto que assim que pisou em Minas, Dom Rodrigo sumiu. O local de seu desaparecimento carrega o nome do mistério até hoje: Sumidouro, um distrito dos arredores de Lagoa Santa.

No final das contas nem Dom Rodrigo nem Fernão Dias colocaram as mãos no Sabarabuçu. Depois de séculos brincando de esconde-esconde com os portugueses, o ouro começava a dar as caras, mas o primeiro a pôr as mãos no metal não foi nem paulista, nem português, foi um tal “mulato”:

 “…e o primeiro descobridor dizem que foi um mulato que tinha estado nas minas de Paranaguá e Curitiba. Este, indo ao sertão com uns paulistas a buscar índios, e chegando ao cerro Tripuí desceu abaixo com uma gamela para tirar água do ribeiro que hoje chamam do Ouro Preto, e, metendo a gamela na ribanceira para tomar água, e roçando-a pela margem do rio, viu depois que havia nela granitos da cor do aço, sem saber o que eram, nem os companheiros, aos quais mostrou os ditos granitos, souberam conhecer e estimar o que se tinha achado tão facilmente, e só cuidaram que aí haveria algum metal não bem formado, e por isso não conhecido.”[1]

Vale lembrar que o termo mulato, uma expressão racista (mulato vem de mula, animal nascido de mistura racial), significava também alguém sem raça definida ou miscigenado, um pária, um homem sem origem nobre.

As pedrinhas misteriosas foram levadas a Taubaté para um tal Miguel Souza e os descobridores, segundo Antonil, “venderam […] sem saberem eles o que vendiam, nem o comprador que coisa comprava”.[2]

As pedras revelaram-se ouro de “finíssima qualidade”[3] e a lenda do mulato sortudo se espalhou rapidamente. Vale lembrar que naquela época ser o primeiro descobridor do ouro atrairia não só a má sorte (quem descobria uma vez não descobriria novamente), mas também chamava a atenção de bandidos e curiosos, e pior, da Coroa Portuguesa.

A resposta para a questão do primeiro descobridor do ouro das minas está numa série de crônicas agrupadas no conhecido Códice Costa Matoso, escrito no século XVIII, por Bento Fernandes Furtado. Neste relato, escrito cerca de 60 anos após as descobertas, o bandeirante Antônio Rodrigues Arzão é apontado como o pioneiro das Minas Gerais em 1693.

“E vendo por aquelas veredas alguns ribeiros com disposição de ter ouro […] fez algumas experiências […] com uns pratos de pau ou de estanho, e foi ajuntando algumas faíscas […] e sem ferramentas alguma de minerar, e ajuntou três oitavas de ouro.” [4]

Surpreende o fato que, na primeira tentativa, o bandeirante tenha achado cerca de 12 gramas de ouro. Nada mal para quem havia chegado num terreno inóspito e sem material próprio para mineração.

Detalhe do Códice Costa Matoso. Fonte: Cult Web.

De Taubaté, cidade paulista que havia recebido as tão célebres pedrinhas pretas, partiu uma nova bandeira chefiada por Salvador Furtado de Mendonça seguindo as dicas dadas por Rodrigues Arzão. No meio do caminho, Mendonça minerou em Itaverava nada menos que doze oitavas de ouro, mas isso não o satisfez. Ao manter a marcha, cerca de cem quilômetros adiante, descobriu uma das maiores jazidas de ouro das minas na atual cidade de Mariana, fundada por ele e sua trupe às margens do Ribeiro do Carmo em 16 de julho de 1696. 

Com duas bandeiras de sucesso, Rodrigues Arzão e Salvador Furtado de Mendonça, não restavam dúvidas, o Sabarabuçu estava próximo e tinha até um novo nome: Itacolomi. Para as bandeiras vindas de Taubaté a referência do local onde havia sido achado o tal ouro preto era um monte com um formato peculiar que na língua dos índios significava Pedra-Menina.

O Pico do Itacolomi visto de Ouro Preto. Foto: Wikipédia .

Apesar de ter sido um dos pioneiros a chegar na região do Itacolomi, Furtado de Mendonça não avistou o pico que demarcava o local do ouro preto, distante apenas 15 quilômetros do arraial do Carmo. Por um capricho geográfico o Itacolomi, visto de Mariana, não apresenta o seu contorno familiar. É preciso estar do lado certo da serra para identificá-lo. E quem avistou o famoso pico foi a bandeira liderada por Antônio Dias e o Padre João de Faria dois anos depois, em 24 de julho de 1698. Antônio Dias alcançou a serra de Ouro Preto no lugar onde hoje está a capela de São João Batista. A busca pelo Sabarabuçu finalmente estava encerrada.


[1] André João Antonil, Riqueza e Opulência no Brasil. Versão online disponível em: http://livraria.senado.leg.br/todos-os-livros/cultura-e-opulencia-do-brasil-por-suas-drogas-e-minas.html

[2] Op. cit.

[3] Op. cit.

[4] Códice Costa Matoso. Fundação João Pinheiro. 1999. “Notícias dos primeiros descobrimentos das primeiras minas de ouro pertencentes a estas Minas Gerais…” Página 155.

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