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História

Uma breve história das ruas de Ouro Preto

As ruas de Ouro Preto são parte de sua história. Conheça mais sobre os caminhos que fazem a cidade.

Podemos afirmar que Ouro Preto nasceu ao redor de uma rua: o caminho que vai das Cabeças até o Padre Faria. Uma rua que corta trezentos anos de história.

As primeiras ruas da então Vila Rica nasceram ao redor dos primeiros sítios de extração de ouro no Padre Faria, Morro São Sebastião, São João, Piedade, Ouro Podre (hoje as ruínas do Morro da Queimada), Taquaral e Piedade.

Por muitas décadas Ouro Preto uma coleção de arraiais com vida própria e separados pelo Morro de Santa Quitéria, atual praça Tiradentes. A unificação da cidade se deu pela abertura de caminhos pelos morros de modo intuitivo, seguindo a disposição do terreno.

O historiador Sylvio de Vasconcellos foi um dos primeiros a delimitar os primeiros núcleos urbanos de Ouro Preto. Na ilustração observa-se como era Vila Rica nos seus primórdios.
Na imagem acima vemos a evolução dos vilarejos em torno não apenas de caminhos, mas de igrejas diretamente ligadas a classe social de seus frequentadores. Fonte: Sylvio de Vasconcellos, Vila Rica.

A rua é a primeira atração para quem chega e muitas vezes sua importância pode passar despercebida. Nessas ruas Felipe dos Santos foi arrastado por cavalos, o povo assistiu ao desfile do Triunfo Eucarístico e o alferes Tiradentes propagou os ideais de liberdade. Por aqui correu o Embuçado, misteriosa figura da Inconfidência, e também Sinhá Olímpia. No carnaval, as ruas de Ouro Preto são tomadas por milhares de foliões. Na Semana Santa, as mesmas ruas são cobertas por tapetes de serragem. 

A mesma rua. Todas as cidades históricas mineiras possuem uma “rua Direita”. No caso de Ouro Preto, assim como na maioria das cidades auríferas, a rua Direita não é “direita” no sentido de reta, mas por ser a rua das habitações de famílias mais nobres, próxima do centro administrativo da Vila, sempre à direita da praça central.

A rua era vista no século XVIII como um bem comum a ser mantido e respeitado. Numa cidade com terreno irregular, que dificultava a criação de praças e largos, a rua era em o caminho e o local de interação social.

Apesar do aspecto espontâneo de suas construções, regras rígidas visaram a manutenção da paisagem urbana da cidade. Construções que invadissem o perímetro das calçadas eram advertidas e seus donos forçados a respeitar as divisas. Numa ata da câmara de Ouro Preto de 1741, observa-se a preocupação para a pavimentação das vias públicas para evitar que as enxurradas, que desciam com força redobrada das ladeiras mais íngremes, causassem danos aos passantes e aos edifícios. Era solicitado que na manutenção das ruas fossem usadas boas pedras:

“[…] que fiquem bem ligadas e unidas umas com as outras para que se não arranquem e que sejam grandes e duras, de palmo para cima, ao menos, de comprido, para poderem resistir as umidades das águas e exercícios contínuo das ferraduras de cavalo”.[1]

O trânsito algumas vezes era feito de modo peculiar. Foi bastante comum o uso do passeio no centro da via, conhecido como capistrana, deixando as laterais para o tráfego de cavalos.[2] Em Ouro Preto, este calçamento antigo pode ser visto na rua Amália Bernhaus, que liga a praça Tiradentes ao largo da igreja de São Francisco de Assis.

Lendário oratório do Vira-Saia, na subida da ladeira de Santa Efigênia. Um dos mais antigos de Ouro Preto. Foto do autor.

Depois de determinada hora a rua se tornava o território ideal para bandidos e assombrações. Em outra ata da câmara municipal se determina a eleição de 12 homens direitos para “sossegar qualquer inquietação que suceder”[3], uma espécie de força tarefa para manter a paz nas ruas.

Além do medo de ladrões havia o medo das assombrações que apareciam aos transeuntes desavisados. Nasceu daí um compêndio de lendas e causos sobre espíritos, aparições e seres fantásticos. Para zelar pela paz pública e afugentar os fantasmas, oratórios eram colocados nas esquinas, os chamados vira-e-saia. São as velas e candeeiros destes oratórios a primeira iniciativa de iluminação pública da cidade.

A lenda do Vira-e-saia é das mais conhecidas em Ouro Preto. Os oratórios de rua eram usados por um famoso contrabandista de ouro para indicar o caminho que as comitivas seguiriam. Se o santo estivesse virado para um lado, significava que seria aquele o caminho pelo qual seguiriam os portadores do ouro quintado. Seguindo essas indicações se tornava mais fácil assaltar as tropas que seguiam para o Rio de Janeiro.

Durante o dia a cidade se transformava e as ruas eram o palco da rotina urbana, com o vai-e-vem constante de mercadores, mineradores, homens do governo, escravos, quitandeiras, meirinhos e aventureiros. A grande aglomeração de pessoas em terreno tão sinuoso dava margem a conventículos e mexericos, e não por acaso o movimento político que teve Tiradentes como líder ficou conhecido como Inconfidência.[4]

Casa na rua do Pilar com raro exemplar de janelas com gelosias em modelo original. Foto do autor.

Era hábito comum observar os passantes da rua através das treliças das janelas. As divisórias vazadas, conhecidas como muxarambiês e gelosias, hoje estão quase totalmente desaparecidas. Observar sem ser observado contribuía para os flertes e os ciúmes passionais, agravados pela visão patriarcal onde a mulher devia estar sob constante vigilância. Para elas era negado o acesso livre, só podiam sair acompanhadas.

Passear por conta própria era apenas para homens, escravos e mulheres tidas como de pouca honra. Para as donzelas mais refinadas e as senhoras de alta classe era notório passear de cadeirinha ou liteira, carregada por dois ou quatro escravos. As liteiras são testemunho da crueldade contra os povos escravizados e algumas estão em exposição permanente no Museu da Inconfidência.

Liteira exposta no Museu da Inconfidência. Foto: Conhecendo Museus.

Um crime lendário. A lenda da donzela assassinada, narrada por Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência, foi baseada num crime real. O português Antônio de Oliveira Leitão assassinara a própria filha, então noiva, depois de vê-la agitando um lenço a um vizinho. Foi preso e sua mulher, Dona Branca, doou o terreno da família para a construção da atual igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, conhecida popularmente como Mercês de Baixo.

Enquanto as ruas de Ouro Preto foram abertas de acordo com a necessidade do crescimento, Mariana, cidade irmã de Ouro Preto, foi uma das primeiras cidades brasileiras a ser planejada, tendo sofrido, em meados de 1745, uma mudança significativa em seu traçado de acordo com o arrojado projeto do Mestre Alpoim.


[1] Citado por Sylvio de Vasconcellos em Vila Rica. Editora Perspectiva.

[2] Segundo Affonso Ávila em Barroco Mineiro – Glossário de Arquitetura e Ornamentação, a capistrana define-se por “Faixa de lajes, assentadas entre o piso de seixo rolado, nas vias públicas, mais comumente no centro destas vias.”

[3] Revista do Arquivo Público Mineiro. 1937.

[4] A expressão Inconfidência Mineira passou a ser vinculada ao movimento posteriormente, durante a República, quando Tiradentes foi elevado ao posto de herói nacional. Até então usava-se o termo Conjuração Mineira.

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